Santuário de Nossa Senhora do Sagrado Coração

Vila Formosa - São Paulo - Brasil

O Sangue da Aliança… (Mc 14,12-16.22-26)

31/05/2018 – O Sangue da Aliança… (Mc 14,12-16.22-26)

Quando se aproximava um poderoso exército invasor, o perigo iminente levava as tribos nômades do deserto a se aliarem, em uma atitude de defesa. Os dois chefes de clã partiam um cavalo ou um boi em duas metades e passavam entre as partes sangrentas, como a dizer: “Se eu não cumprir minha parte na aliança, podes fazer comigo o que fizemos com este animal”.

No Gênesis, um ritual semelhante é celebrado entre Deus a Abraão, selando a aliança entre Deus e seu povo (cf. Gn 15,9-17). Em outras celebrações arcaicas, o sangue de um animal era aspergido sobre a assembleia reunida, como rito de purificação; a melhor carne era queimada em sacrifício e o restante era distribuído ao povo que, assim, entrava em comunhão com a divindade.

As duas partes envolvidas no ritual tornavam-se “aliados de sangue”. Era como se formassem um só povo, pois passavam a ser mutuamente comprometidas com todas as dificuldades e desafios que afetassem uma das partes.

No Evangelho de hoje – escolhido para a liturgia do Corpo e do Sangue do Senhor – no meio de uma celebração que, a princípio, parecia apenas uma ceia pascal judaica, Jesus surpreende os discípulos ao “quebrar o cerimonial” e dizer as palavras da primeira consagração eucarística da história: “Isto é meu Corpo… Este é o cálice do meu Sangue…” Um Corpo “dado”, um Sangue “derramado”…

Na verdade, só no dia seguinte – a Sexta-feira Santa – Jesus seria sacrificado no Calvário, como vítima de salvação. No entanto, já na véspera, na quinta-feira, Ele antecipa de modo sacramental (isto é, por meio dos sinais do pão e do vinho) aquilo que seria evento histórico no dia seguinte.

E as palavras do Senhor deixam claro que ele tem consciência de estar dando formato definitivo à Aliança entre Deus e os homens, tantas vezes tentada no passado: Com Noé (Gn 9,8ss), com Abraão (Gn 17), com Davi (2Sm 7,11c-16). Desta vez, não há vítimas animais, mas o sangue que deve correr é o próprio Sangue do Cordeiro.

Hoje, em cada Eucaristia, a Igreja atualiza (isto é, traz do passado para o presente, de modo real e eficaz) aquele mesmo sacrifício de Jesus, repetindo seus gestos e palavras. O próprio Jesus pedira: “Fazei isto em memória de mim”. (Lc 22,19) E o fiel sabe que está, mais uma vez, presente à montanha do Calvário…

Orai sem cessar: “Ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder!” (Ap 5,13)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.


Tinham medo… (Mc 10,32-45)

30/05/2018 – Tinham medo… (Mc 10,32-45)

Pessoalmente, sinto-me consolado ao ler no Evangelho de São Marcos, secretário do Papa Pedro, que os discípulos eram dominados pelo medo ao se aproximarem de Jerusalém, onde, segundo prenunciava o Mestre, a oposição a Jesus chegaria a seu clímax: condenação, tortura e morte!

Afinal de contas, os discípulos haviam convivido com seu Mestre por quase três anos. Presenciaram seus milagres, a tempestade serenada, o leproso purificado, o morto ressuscitado. Depois de toda essa preparação, não era de esperar que estivessem dispostos a tudo?

Ledo engano. Nossa humanidade frágil é a mesma em todo tempo e lugar. Toda vez que o seguimento de Jesus significa para nós algum tipo de risco, voltamos a nos preocupar com a própria segurança. Toda vez que os apupos inesperados substituem os aplausos tão desejados, nós reexaminamos nossa entrega inicial. Sempre que a fé aponta para o martírio, pensamos na apostasia. Somos do mesmo barro que nosso pai Adão…

De fato, os companheiros de Jesus ainda estavam olhando para outra direção. Pensavam no Reino que o Mestre iria estabelecer e, naturalmente, nos ministérios que caberiam a cada um deles. Estavam prontos a sentar-se “à direita e à esquerda” (cf. Mc 10,37), mas nada dispostos a abraçar a cruz…

Só após Pentecostes esses homens simples e um tanto abrutalhados – fiéis fabricados a canivete! – entenderiam a afirmação de que Jesus tinha vindo para servir e dar a sua vida para nossa redenção. Antes de serem inundados pelo Espírito Santo, seus projetos e ideais permaneceriam contagiados por expectativas humanas, sonhos de grandeza, busca de compensações.

No entanto, a História registra a profunda mudança neles operada pelo fogo de Pentecostes: os covardes tornam-se ousados, os preguiçosos atravessam os oceanos, os sonhadores arregaçam as mangas e dão a vida pela Boa Nova. Nenhuma distância impede sua marcha. Nenhuma ameaça amordaça sua boca. Nenhum prêmio material pode afastá-los da coroa eterna. Feras do Coliseu, a espada do carrasco, as cruzes e as minas de metal, nada arrefece o seu amor.

E nós? Já fomos abrasados pelo Espírito de Pentecostes?

Orai sem cessar: “Entramos no fogo e na água,

mas nos fizeste sair para um banquete.” (Sl 66,12b)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.


Deixamos tudo… (Mc 10,28-31)

29/05/2018 – Deixamos tudo… (Mc 10,28-31)

Jesus acaba de “exagerar”… Para expressar com clareza que o apego aos bens materiais impede o progresso espiritual, ele apelou para dois extremos: o maior animal daquela região (o camelo) e a menor passagem conhecida (o furo da agulha). Agora, era só juntar os dois: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”.

Todos se assustam. “Então, quem se salva? Ninguém?” Jesus reflete: “O que é impossível para os homens, é possível para Deus”. E Pedro resolve arriscar: “E nós… que deixamos tudo… e te seguimos?”

Ora, Pedro, faça-me o favor! Deixaram tudo?! Que foi que você deixou? A sogra velha e doente? Aquela barca velha e cansada, que fazia água quando o vento embravecia? Aquelas velhas redes, que vocês estavam remendando quando o Mestre os chamou? Aquele lago avarento, que vocês chamavam de mar e que deu peixes apenas três vezes em todo o Evangelho, exatamente quando Jesus fez três milagres? (Cf. Lc 5; Mt 17,26; Jo 21.)

Assim somos nós, tal como Pedro e seus companheiros. De que foi que abrimos mão para seguir a Jesus? Diplomas que mofam nas gavetas? Empregos que uma recessão econômica pulveriza? Juras de amor que duram um verão? E são quinquilharias desse tipo que costumam impedir que sigamos o chamado de Deus!!!

Enquanto isso, imperturbável, Teresa de Ávila canta a meia voz:
Nada de perturbe,

nada te espante;

tudo passa,

Deus não muda.

 

A paciência

tudo alcança;

Quem a Deus tem,

nada lhe falta.

Só Deus basta.
Deus me basta? Preenche a minha vida? Ou ainda preciso de algo mais para ser feliz?

Orai sem cessar: “Põe tua esperança no Senhor!” (Sl 131,3)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.


E terás um tesouro… (Mc 10,17-27)

28/05/2018 – E terás um tesouro… (Mc 10,17-27)

Para receber o presente, a condição é abrir as mãos… Se as mãos estão cheias, ocupadas, como haveriam de acolher a dádiva inesperada?

Este Evangelho é rico de sugestões. Narra o encontro de um jovem bom, cumpridor da Lei. Ele deve ter ouvido a pregação de Jesus e alguma coisa se moveu em suas entranhas. É provável que nem mesmo ele soubesse por quê, mas ei-lo de joelhos, prostrado ao solo diante do Mestre. Diante do único que é bom…

Sendo um jovem rico, havia crescido na abundância e herdara os bens da família. Todo mundo sabe que não são “coisas” assim – terras, casas, rebanhos… – o que pode preencher o coração do homem. Natural que uma impressão de vazio interior o rondasse aqui e ali.

Naquele dia, juntou-se à multidão que acompanhava o Rabi da Galileia. Ouviu suas palavras entre o encantamento e o espanto. De quê teria falado o Mestre? Ouso adivinhar: lembrou as aves do céu, que não semeiam nem colhem, mas são alimentadas pelo Pai celeste… E os lírios do campo, cujo manto de ouro excede em muito as túnicas de Salomão… Teria comentado, ainda, que o Filho do Homem não tinha uma pedra, ao menos, para descansar a cabeça… Coisas assim, novidade absoluta para o jovem inquieto…

Quando o jovem conversou com Jesus, logo após ter declarado com candura que observava toda a Lei, cumpria todos os mandamentos, aconteceu algo inesperado: Jesus olhou para ele e viu que era amável. Olhou-o com amor.

E foi por amar o jovem que Jesus decidiu exigir dele muito mais que a Lei seca do Sinai. Em seu olhar de amor, que vai ao âmago da alma, Jesus percebeu que o jovem ainda não estava pleno. E disse: “uma coisa te falta…”

O jovem pode ter pensado: “Alguma coisa me falta? Mas eu tenho tudo!” E Jesus: “Vai. Vende tudo. Dá aos pobres. Depois, vem e segue-me!” E o jovem rico ficou triste.

Triste, não por ter de deixar seus bens. Triste, ao descobrir, inesperadamente, que não era tão bom quanto pensava. Triste, ao perceber, pela primeira vez, que seu coração estava preso.

Afastou-se o jovem, diz o Evangelho. Mas não disse por quanto tempo… Eu não ficaria admirado se o bom rapaz estivesse entre os 120, na manhã de Pentecostes, depois de ter distribuído seus bens e, livre e leve, passado a seguir aquele Rabi de olhos profundos, cujo amor vale mais que todos os tesouros…

Orai sem cessar: “Onde está o teu tesouro, aí está o teu coração.” (Mt 6,21)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança.


A todas as nações… (Mt 28,16-20)

27/05/2018 – A todas as nações… (Mt 28,16-20)

No cenário de sua Ascensão, prestes a regressar ao Pai, Jesus Cristo “amarra” a missão da Igreja à vida trinitária: é “em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” que a Igreja assumirá sua ação missionária, sua vida sacramental e seu ensinamento. E como Deus não é apenas o Deus de Israel, mas o Deus de todos, é para “todas as nações” que tal missão se orienta.

O primeiro passo da missão da Igreja consiste em pregar o Evangelho do Reino. Em notável e imprevista ampliação do horizonte missionário, este anúncio se dirige indistintamente a todas as nações que povoam a Terra. Bem no coração da Igreja, como se confirmará na luminosa manhã de Pentecostes, será demolido em definitivo o muro de separação entre judeus e pagãos. Doravante, o cioso título de filhos de Abraão estende-se a todos aqueles que possuem a fé. A promessa de salvação realizada em Jesus Cristo dirige-se agora, sem qualquer distinção, a todo aquele que crê. O desejo de Deus é que todos os homens sejam salvos.

Como observa o biblista Hébert Roux, “à pregação do Evangelho junta-se o sinal batismal que assinala a incorporação ao Corpo de Cristo. Pelo batismo, todas as nações são integradas ao benefício da graça do Deus vivo, Pai, Filho e Espírito Santo. A presença desta fórmula trinitária no final do Evangelho manifesta claramente a intenção de Mateus de situar todo o testemunho que ele empresta ao Evangelho de Jesus Cristo no quadro da pregação da Igreja Apostólica”.

Na assembleia dos fiéis, a palavra de Jesus Cristo, inspirada pelo Espírito Santo, impelirá cada fiel a dizer “Abbá”, chamando a Deus de Pai. Assim, não é apenas Jesus, o Filho, que estará “conosco todos os dias, até a consumação dos séculos”, mas toda a Trindade. O mesmo Deus da Criação e da Redenção é aquele que dota a Igreja para a missão e inspira seus passos na História dos homens, até o grande dia da vinda do Senhor.

Foi esta certeza que moveu os apóstolos, sustentou os mártires, animou os missionários de cada geração. Nossas fraquezas e limitações humanas são amplamente superadas com a ajuda da Graça divina. A mesma convicção irá permitir que a Igreja se mantenha viva também em nosso tempo, apesar de nossa fragilidade e da violência das tempestades.
Orai sem cessar: “Feliz o povo que Ele escolheu por sua herança!” (Sl 33,12)

Texto de Antônio Carlos Santini, da Comunidade Católica Nova Aliança


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